quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Inseminação Educacional










Inseminação Educacional
Mario Persona


Sou um privilegiado, um inseminador de idéias, construtor de caracteres, criador de borboletas. Sou um professor. Um dia ainda será a minha única atividade, já que a considero a mais importante. Enquanto a influência de um consultor dura apenas o momento de gravidade de uma empresa, a do educador dura uma vida e vai além. Engravida mentes.

Ser consultor, palestrante e escritor também envolve ensinar e até dá mais dinheiro e prestígio, mas nenhuma dessas atividades permite sussurrar tão próximo do cérebro e coração de quem deseja voar, nenhuma permite acompanhar a transformação da crisálida em borboleta.

Já ensinei muita coisa diferente para muita gente. Crianças na escola dominical, adolescentes na escola rural, meus filhos na escola do lar e pessoas com mais títulos do que eu em palestras, faculdades e cursos de pós-graduação. Não há dinheiro que pague – e geralmente o salário do professor não paga mesmo – o prazer de fazer diferença na vida de grandes e pequenas pessoas.

Qualidade na educação

A qualidade na educação começa com qualidade no educador, que precisa gostar de aprender e ter gana de ensinar, talento e vocação. Conheço excelentes educadores que saíram de péssimas escolas, e doutores que sabem menos do que uma bactéria, criados por grandes instituições. Como explicar? Mais importante do que a escola que cursaram é o que são capazes de fazer com o que aprenderam.

Quando adolescente fiz um curso de desenho artístico por correspondência, dessas escolas que anunciam em gibi. Ao revelar isso, corro o risco de receber uma saraivada de fogo e enxofre vinda dos deuses da educação que se assentam no Olimpo do conhecimento acadêmico de pedigree. Sim, aprendi muito com aquela escola. E também com gibis.

Fiz o curso, mas fiquei sem o canudo por não me preocupar em enviar os últimos exercícios. Não estava interessado no certificado, mas no aprendizado. Continuei a seguir a paixão que aquele curso despertou por sua sedução e transformei a arte em profissão. Fui desenhista, cartunista, pintei perspectivas de edifícios, transpirei a criatividade que só é gerada pelo calor de uma paixão. Virei arquiteto, mas foi só graças ao vestibular de uma pequena faculdade de interior. De lá me transferi para Santos, onde terminei o curso pescando nas pedras do Morro do Maluf no Guarujá, convenientemente instalado no apartamento de veraneio de meu pai.


O pólen do saber
Nunca precisei consultar um analista por algum trauma causado por essa minha humilde origem acadêmica. Dou graças a Deus pelos professores que estimularam minha capacidade natural de pensar e não reprimiram meu desejo marginal de aprender. Sem isso eu teria parado de aprender no último dia de aula. Mas não parei.

Essa origem acadêmica humilde costuma gerar algum frisson naqueles com canudos mais avantajados, turbinados por uma formação cinco estrelas. Infelizmente, alguns desses nada fazem pela qualidade do ensino além de pulverizar, com seu veneno crítico, o governo, o ensino e as faculdades daninhas. Enquanto permanecem estéreis, protegidos numa redoma acadêmica de cristal e tomando um chopp em taça do mesmo material.

Fico pensando no que aconteceria se essas pessoas violentassem o ensino, imiscuindo seus estames por entre os pistilos das faculdades menores, fertilizando seus alunos com o melhor pólen do saber. Seriam sedutores educacionais, empenhados no assédio dos mesmos alunos que eles acreditam viver hoje privados dos prazeres fecundos de uma sapiência de qualidade.

Revolução gratificante

Recebi um e-mail de uma ex-aluna de um curso noturno que atualmente administra um hospital. Comove-me pensar que ela sinta alguma gratidão por aprender algo de alguém que não tem nem metade da capacidade e qualidade pedagógica de profissionais formados por grandes instituições. Se aprendeu algo de mim, o quanto não aprenderia com os grandes mestres?

Pense no que aconteceria se esses bem-dotados educadores inseminassem seus genes de qualidade nas faculdades mais carentes, causando uma transgenia nessas que são hoje o maior reduto de pessoas desesperadas por qualificação para o mercado de trabalho. Gente que só estuda à noite, abrindo só um olho vermelho de cada vez porque precisa trabalhar de dia para o orçamento familiar não ficar da mesma cor.

Seria uma revolução. Mas daria trabalho, sem falar na perda de status. Como iriam os melhores espécimes acadêmicos esconder algo assim em seus imaculados currículos? Como suportar o vexame, se os outros deuses descobrissem que eles andaram seduzindo mentes de mortais instituições fora do Olimpo da educação, coabitando com aqueles que não conseguiram passar em um grande vestibular? Certamente fariam uma grande diferença na vida dos alunos, mas será que é isso que buscam?


Miscigenação promíscua?
Essa promíscua miscigenação no ensino geraria uma nova estirpe de profissionais, estudantes que não tiveram tempo, dinheiro ou oportunidade de estudar nas melhores instituições. Sim, é preciso tudo isso para um curso que exija dedicação integral. Eu mesmo faço parte de uma minoria privilegiada, já que tive um pai que sustentava meus estudos, meu carro e meu veraneio perene nas praias do Guarujá.

Tive recursos, mas não inteligência ou força de vontade para passar no vestibular de uma grande instituição. Se dependesse da meia dúzia de universidades de renome, eu nem graduado seria. Teria empacado no mata-burro de um vestibular que estava além da minha capacidade intelectual. Como quase aconteceu com meu amigo. Ele não passou num vestibular decente porque não era inteligente o suficiente. Pelo menos, segundo os padrões das provas. Por obra e graça de uma lista de espera, acabou numa faculdade do interior e só foi deslanchar no exterior porque seu cérebro não cabia aqui. Hoje é um dos maiores especialistas do mundo em sua área, com recordes de mestrados e doutorados para a sua idade.

Tão grande foi a sua ascensão acadêmica por lá que no último título conquistado, o reitor cochichou em seu ouvido: "Gostaria de ter o prazer de lhe proporcionar uma homenagem íntima para a entrega desse título". Sabe como é, o reitor queria evitar uma cerimônia pública, preocupado com os melindres dos outros doutores de lá, que só alcançaram o patamar de meu jovem amigo depois de ganharem cabelos brancos ou perdê-los. Meu amigo aceitou o título, mas não a homenagem. "Homenagem íntima eu prefiro a da minha esposa", respondeu educadamente ao reitor.

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