quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Interdisciplinaridade e Transversalidade

Interdisciplinaridade: Uma Questão de Propósito

Raylene Rêgo Braz Andrade Oliveira. Pedagógica. Pós em Pedagoga Social. Especialização em Interdisciplinaridade. Psicopedagoga Institucional. Mestranda em Teologia. www.raylenerego.blogspot.com/ raylenerego@hotmail.com.

Desenvolver a pedagogia de projetos, dinâmicas em sala de aula, dentre outros, incluindo a interdisciplinaridade: é uma questão de propósito. Quando se pensa interdisciplinarmente automaticamente a concepção fragmentada perde espaço; passa a surgir a visão unitária do ser humano.
Interdisciplinaridade é uma palavra imensa e dificultosa no pronunciar; complexa para se viver; conflituosa para se discutir, mas fascinante e real para alguns profissionais da educação. Muitas vezes vivenciamos atitudes interdisciplinares e não as contextualizamos e nem damos continuidade as nossas ações por não sermos conhecedores do tema. “Descobrir-se interdisciplinar é uma experiência gratificante. Acredito que essa descoberta começa justamente quando você se interessa pela palavra interdisciplinaridade. (Fazenda, 2002, p. 57)”.
Dessa forma, ser interdisciplinar é estar aberto ao novo, a enxergar o mesmo objeto em toda a sua plenitude: lado, cima, baixo, frente, trás e não simplesmente ser reducionista ao que a visão alcança em primeira instância. Ser interdisciplinar é se ter atenção com a opinião crítica do outro para fundamentar sua opinião particular.
A Interdisciplinaridade prima pela integração no sentido de organização, sistematização de disciplinas, ou seja, para que seja efetivada a interdisciplinaridade deve haver integração entre disciplinas. “A interdisciplinaridade não consiste numa desvalorização das disciplinas e do conhecimento produzido por elas” (Heloísa Luck, 1994, p.67).
No entanto, não se pode integrar apenas conteúdos, ou temas, ou dinâmicas e metodologias, mas sim conhecimentos específicos para que se chegue ao abrangente (global). Como diz Libâneo (1996, p.13) “O importante não é a transmissão de conteúdo específico, mas despertar ema nova forma da relação com a experiência vivida”. Ainda sobre o assunto aponta Gadotti (1986, p.87): O aluno perde o interesse diante de disciplinas que nada tem a ver com a sua vida, com suas preocupações. Decora muitas vezes aquilo que precisa saber (de forma forçada) para prestar exames e concursos. Passada as provas, tudo cai no esquecimento”.
A interdisciplinaridade quando vivenciada ultrapassa a sala de aula. Porque é a través da ação interdisciplinar que o aluno participa, discute e emite parecer diante do conteúdo livresco, relacionando-o com o seu dia-a-dia. dizer o que pensa oportuniza ao participante expor o seu letramento: a sua visão de sociedade, o seu papel na sociedade e a sua importância para essa sociedade e enfim, qual a sua posição de cidadão.
Contudo, além de toda a integração precisa e necessária, deve-se recorrer à interação, que é elemento da integração e visa novos questionamentos, novas buscas e descobertas, transformando realidades.
Vale ressaltar, que muitas vezes os pedagogos, educadores e profissionais da área educativa de maneira geral não conseguem compreender, caracterizar e distinguir Pluridisciplina; Multidisciplina; Interdisciplina; Transdisciplina.




Referências

GADOTTI, M. Educação e Compromisso, 2ª ed. Campinas: Papirus, 1986.

HELOISA, Luck.

LIBÂNEO, J. C. Democratização da Escola Pública: a pedagogia Crítico- Social dos Conteúdos. São Paulo: Loyola, 1996.


www.raylenerego.blogspot.com/ raylenerego@hotmail.com




INTEGRAÇÃO E INTERDISCIPLINARIDADE: UMA AÇÃO PEDAGÓGICA

fonte: http://www.cefetsp.br/edu/eso/delacirinter.html

Delacir A . Ramos Poloni

(Professora de Geografia da Escola Técnica Federal de São Paulo)

"Realizar um trabalho sobre interdisciplinaridade no ensino tornou-se particularmente necessário, na medida em que é um tema bastante atual e, no Brasil, é admitido como possibilidade para uma sistematização da educação. Tal situação suscita a necessidade de uma investigação mais acurada e de uma análise mais atenta do significado desta interdisciplinaridade".



1 - Interdisciplinaridade: uma questão de atitude



A interdisciplinaridade, atualmente, está sendo tratado como a solução para o restabelecimento de uma nova ordem na educação-ensino, no país.

O termo interdisciplinaridade significa uma relação de reciprocidade, de mutualidade, que pressupõe uma atitude diferente a ser assumida rente ao problema do conhecimento, ou seja, é a substituição de uma concepção fragmentária para uma concepção unitária de ser humano.



A interdisciplinaridade pressupõe:



uma atitude de abertura, não preconceituosa, onde todo o conhecimento é igualmente importante, onde o conhecimento individual anula-se frente ao saber universal;
uma atitude coerente, sendo que é na opinião crítica do outro que fundamenta-se a opinião particular, supondo uma postura única, engajada e comprometida frente aos fatos da realidade educacional e pedagógica.


"A atitude interdisciplinar nos ajuda a viver o drama da incerteza e da insegurança. Possibilita-nos darmos um passo no processo de libertação do mito do porto seguro. Sabemos o quanto é doloroso descobrirmos os limites de nosso pensamento, mas é preciso que façamos". (Japiassú, 1976). É na intersubjetividade desse processo, que ocorre a interação e o diálogo, como únicas condições de possibilidade da interdisciplinaridade.



A ação pedagógica de efetivação da interdisciplinaridade se dá pelo desenvolvimento da sensibilidade, de uma formação adequada e necessária na arte de entender e esperar, e no desenvolvimento da criação e imaginação.

Nessa ação a relevância metodológica é indiscutível, "porém é necessário não fazer-se dela um fim, pois interdisciplinaridade não se ensina nem se aprende, apenas vive-se, exerce-se e por isso, exige uma nova Pedagogia..." (Fazenda, 1993).

Segundo Japiassú, "a interdisciplinaridade caracteriza-se pela intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas no interior de um mesmo projeto de pesquisa...", como é o caso do Projeto Pedagógico da Escola, fio condutor de nossas ações educativas e compromisso profissional. Pode-se desenvolver outros projetos afins, e, principalmente aqueles de interesse coletivo, que de uma forma ou de outra, está contemplado no ideário do Projeto maior.

Para esclarecer alguns problemas de terminologia dentro da questão e do conceito de interdisciplinaridade aqui desenvolvido, "e abrir caminho a uma reflexão epistemológica. G. Michand propõe uma distinção terminológica, em cinco níveis de significados, a saber:



Disciplina - conjunto específico de conhecimentos com suas próprias características sobre o plano do ensino, da formação dos mecanismo, dos métodos, das matérias.

Multidisciplina - justaposição de disciplinas diversas, desprovidas de relação aparente entre elas. Ex.: Música + Matemática + História

Pluridisciplina - justaposição de disciplinas mais ou menos vizinhas nos domínios do conhecimento. Ex.: domínio científico: Matemática + Física.

Interdisciplina - interação existente entre duas ou mais disciplinas. Essa interação pode ir da simples comunicação de idéias à integração mútua dos conceitos diretores da epistemologia, da terminologia, da metodologia, dos procedimentos, dos dados e da organização referentes aos ensino e à pesquisa. Um grupo interdisciplinar compõe-se de pessoas que receberam sua formação em diferentes domínios do conhecimento (disciplinas) com seus métodos, conceitos, dados e termos próprios.

Transdisciplina - resultado de uma premissa comum a um conjunto de disciplinas (Ex.: Antropologia considerada como a ciência do homem e de suas obras.)" *



Conclui-se, que existe uma preocupação em definir-se terminologias a respeito do entorno interdisciplinar, embora as definições baseiam-se em diferentes pressupostos. Os cinco níveis acima definidos são os mais utilizados na bibliografia especializada no assunto, como salienta Japiassú, "que existe uma gradação entre esses conceitos, gradação essa que se estabelece ao nível de coordenação e cooperação entre as disciplinas".



2 - Utilidade, valor e aplicabilidade da interdisciplinaridade



"Interdisciplinaridade não é ciência, nem ciência das ciências, mas é o ponto de encontro entre o movimento de renovação da atitude frente aos problemas de ensino e pesquisa e a aceleração do conhecimento científico. Também não é uma panacéia que garantirá um ensino adequado, ou um saber unificado mas um ponto de vista que permite uma reflexão aprofundada, crítica e salutar sobre o funcionamento do mesmo. Podemos dizer que é a possibilidade de eliminação do hiato existente entre a atividade profissional e a formação escolar".*

É condição de volta ao mundo vivido e recuperação da unidade pessoal, pois, o grande desafio está na tomada de consciência sobre o sentido da presença do Ser humano no mundo, portanto, requer uma mudança de postura na relação metodológica entre quem ensina e quem aprende, com um método científico, que leve em conta os pressupostos de substituição de uma concepção fragmentária, pela concepção unitária de Ser humano no sentido da recuperação da totalidade.

Com a finalidade de estabelecer uma articulação entre o universo epistemológico e o universo pedagógico, procura-se verificar o valor, a utilidade, a aplicabilidade da interdisciplinaridade no ensino, bem como seus obstáculos e possibilidades de efetivação. Para tanto, faz-se necessário a eliminação das barreiras entre as disciplinas e entre os profissionais que pretendem se envolver nesse Projeto.

A análise do documento "Projeto Pedagógico da ETFSP", face aos seus referenciais teórico-metodológicos nele apontados, revelou-se uma urgente necessidade de maior elucidação referente à integração e interdisciplinaridade, na tentativa de buscar-se um novo debate sobre o Ser humano-cidadão que se pretende construir, e com a consciência efetiva de uma educação permanente.

Ao lado desse compromisso com o Projeto, está a tentativa de superação gradativa dos principais obstáculos à efetivação do trabalho interdisciplinar, sendo que o mais importante seria o estabelecimento de uma consciência crítica sobre o valor e significado do mesmo, bem como uma orientação segura de como iniciá-lo.

A esse respeito, já nos alertava B. Brecht: "Não somos nós quem dominamos as coisas. São elas que nos dominam".



Mãos a obra!



Texto adaptado de : Fazenda, I.C.A . Integração e Interdisciplinaridade no Ensino Brasileiro. São Paulo, Edições Loyola, 1993.

Japiassú, H. Interdisciplinaridade e Patologia do Saber. Rio de Janeiro, Ed. Imago, 1976

* (Fazenda, 1993)
INTERDISCIPLINARIDADE

Fonte: http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/294810

INTRODUÇÃO

Esta produção textual, tem como função primordial tratar sobre a interdisciplinaridade, um dos maiores desafios educacionais para o século XXI, estabelecendo o seu conceito, com base nos trabalhos e pesquisas em curso que tratam desta problemática, bem como observar sua importância para a educação e aprendizagem significativa da realidade atual.

* * *
A interdisciplinaridade atualmente é a palavra de ordem para as novas propostas educacionais no Brasil e no mundo, porém a maioria dos educadores não sabem o que fazer com ela, sentindo-se amedrontados com a possibilidade de sua implementação no sistema educacional brasileiro. Nos novos projetos para o ensino visivelmente percebe-se a falta de segurança que faz parte do novo paradigma emergente do conhecimento.
Muitos estudiosos na tarefa de definir a interdisciplinaridade se confundem em meio a diferenciação de termos como: multi, pluri e interdisciplinaridade.
Os currículos organizados pelas disciplinas tradicionais, em termos de ensino, conduzem geralmente os alunos a um acúmulo de informação, muitas vezes sem relação com a vida prática e profissional. Segundo FAZENDA (1999:16) “o desenvolvimento tecnológico atual é de ordem tão variada que fica impossível processar-se com a velocidade adequada a esperada sistematização que a escola requer. Por outro lado a opção que tem sido adotada, da inclusão de novas disciplinas ao currículo profissional, só faz avolumarem-se as informações e atomizar mais o conhecimento”
Há casos isolados em que educadores deixam de lado os conhecimentos tradicionalmente sistematizados e organizados e exploram indiscriminadamente, conhecimentos do senso comum, podendo gerar prepotências ainda maiores que o conhecimento científico. É necessário que haja uma inter-relação do senso comum com o saber científico, gerando uma nova racionalidade, privilégio de todos.
Segundo FAZENDA (1999:17), “o que com isso queremos dizer é que o pensar interdisciplinar parte do princípio de que nenhuma forma de conhecimento é em si mesma racional. Tenta, pois, o diálogo com outras formas de conhecimento, deixando-se inter-penetrar por elas. Aceita o conhecimento do senso comum como válido, pois é através do cotidiano que damos sentido às nossas vidas. Ampliado através do diálogo com o conhecimento científico, tende a uma dimensão utópica e libertadora, pois permite enriquecer nossa relação com o outro e com o mundo”
No projeto em que verdadeiramente se instaura a interdisciplinaridade não se ensina, nem se aprende, vive-se e exerce-se.
A principal característica da atitude interdisciplinar é a busca pelo conhecimento, a transformação da insegurança num exercício do pensar.
No que diz respeito à ciência, nossa sociedade nos apresenta a natureza como algo separado de nós, onde diversos aspectos (fato, fenômenos, existência) aparecem fragmentados, ou seja, de forma desconexa, forçando a incompreensão da totalidade.
Na antiguidade grega (séc. VI a.C), filosofia, arte e ciência eram unidos formando o “conhecimento” totalitário, conceituado pela palavra physis.
Com o predomínio romano (civilização latina) a palavra physis foi distorcida, perdendo o seu sentido essencial (força evocativa) e assim a visão do universo começa a se fragmentar ante a sociedade ocidental.
Agora é preciso voltar às “raízes”, buscando superar a visão fragmentada do mundo, substituindo-a pela visão holística. Reconhecer que o universo é um todo e que somos parte deste todo, como as ondas são parte do oceano. A interdisciplinaridade é uma atitude, a exteriorização de uma antiga visão de mundo que é a holística, podendo ser comparada como um ato de troca, reciprocidade, entre as áreas de conhecimento (disciplinas ou ciências).
A interdisciplinaridade, corresponde à necessidade de superar a visão fragmentada de produção de conhecimento, produzindo coerência entre os múltiplos fragmentos que estão postos no acervo de conhecimentos da humanidade.
È preciso estabelecer o sentido de unidade, mediante uma visão de conjunto que permita ao homem ter sentido dos conhecimentos e informações, reconhecendo a identidade do saber multidisciplinar dos conhecimentos.
O pensar e o agir interdisciplinar estão apoiados no princípio de que não existe fonte de conhecimento, por si só completa e que é necessário a interação (interpenetração) com outras fontes de conhecimento, para se compreender a realidade e a forma como se apresenta.
Assim sendo, segundo LUCK (1994:64) o conceito de interdisciplinaridade para o contexto do ensino é: “o processo que envolve a integração e engajamento de educadores, num trabalho conjunto, de integração das disciplinas do currículo escolar entre si e com a realidade, de modo a superar a fragmentação do ensino, objetivando a formação integral dos alunos, a fim de que possam exercer criticamente a cidadania, mediante uma visão global de mundo e serem capazes de enfrentar os problemas complexos, amplos e globais da realidade atua ”.
A interdisciplinaridade caracteriza-se pela colaboração entre as disciplinas diversas de uma determinada ciência enriquecida nas trocas provenientes da reciprocidade. È o ponto de encontro ante os movimentos de renovação dos problemas de ensino e pesquisa e o avanço do conhecimento científico. Critica duramente a educação fragmentada (“migalhas”) como forma de romper com o “ encasulamento do universo” e incorpora-la a vida
A interdisciplinaridade permite uma reflexão aprofundada, crítica e salutar sobre o funcionamento do saber unificado, apoiando o movimento de ciência e pesquisa. Observa-se uma possibilidade de extinguir a dicotomia entre a atividade profissional e a formação escolar.

A Interdisciplinaridade e a Formação Geral

a) Inicialmente o objetivo é de permitir aos estudantes melhor desenvolver suas atividades, melhor assegurar sua orientação, a fim de definir o papel que deverão desempenhar na sociedade;
b) É também necessário que “aprendam a aprender”;
c) É importante que se situem no mundo de hoje, criticando e compreendendo as inumeráveis informações que os agridem cotidianamente.

Para “encontrar-se” no mundo atual, requer compreender e criticar as imprescritíveis transformações diárias pelos quais todos passam, superando a separação pré – estabelecida entre as disciplinas.
Se faz necessário a compreensão a compreensão em termos dialéticos das diferentes formas pelas quais o homem conhece, não se admitindo que o conhecimento se restrinja a campos delimitados de especialização.


A Interdisciplinaridade na Compreensão e Modificação do Mundo

O homem precisa compreender o mundo (que é múltiplo) em todas as suas formas e possibilidades, para modifica-lo.
O homem que se deixa influenciar por uma única visão do conhecimento, desenvolve uma visão deturpada da realidade e somente ao despertar para a realidade multifacetada existente, efetivamente terá possibilidade de modifica-la
Através da Paidéia (formação total do homem) inicia-se a preparação para a compreensão do mundo, porém essa formação passou a ser fragmentada (produto da ocidentalização) com o seu aumento do saber e a criação do sistema educacional ( família, igreja, escola, etc.), dando a função de cada um.
Da idéia de transmissão de conhecimento o homem tornou-se objeto, o receptor das transformações, deixando de ser o sujeito afetivo, o agente de transformações.

A Interdisciplinaridade e a Formação Profissional

a) Na maior parte dos casos, a atividade profissional exige atualmente o aporte de muitas disciplinas fundamentais;
b) Reconhece-se que no futuro, todo o indivíduo terá oportunidade de mudar muitas vezes de profissão durante sua vida; pelo fato dessa mobilidade de emprego, há necessidade de uma plurivalência na formação profissional.

Faz-se necessário o aporte das múltiplas e variadas disciplinas, possibilitando adaptações às inevitáveis mobilidades de emprego, criando maior probabilidade de carreira em outros campos.


Da Integração à Interdisciplinaridade

A integração é uma etapa (e não produto acabado) essencial e funcional da interdisciplinaridade, sendo anterior a esta, como uma decorrência natural do processo interdisciplinar .
A interdisciplinaridade é o fator de transformação, de mudança social, enquanto a integração preocupa-se em conhecer e relacionar conteúdos, não aniquilando as barreiras entre as disciplinas.
A integração em relação á interdisciplinaridade conclui-se que há necessidade da integração como momento, como possibilidade de atingir-se uma “interação”, uma interdisciplinaridade com vistas a novos questionamentos, novas buscas, enfim, para uma mudança na atitude de compreender e entender.

A Interdisciplinaridade e as Suas Modalidades

Entre as modalidades possíveis da interdisciplinaridade Cesare Scurati estabelece uma taxonomia com seis níveis, em ordem crescente de inter-relação:
1. Interdisciplinaridade heterogênea – É uma espécie de enciclopedismo, baseada na “soma” de informações procedentes de diversas disciplinas.
2. Pseudo – interdisciplinaridade – O nexo de união é estabelecido em torno de uma espécie de “metadisciplina” . Neste caso existe uma estrutura de união para trabalhar em disciplinas muito diferentes entre si.
3. Interdisciplinaridade auxiliar – Quando em uma disciplina se recorre ao emprego de metodologias de pesquisa próprias ou originais de outras áreas do conhecimento.
4. Interdisciplinaridade composta - Trata-se da situação na qual para a solução de determinados problemas sociais, se propõe a intervenção de equipes de especialistas de múltiplas disciplinas.
5. Interdisciplinaridade complementar - Ocorre quando se produz uma sobreposição de trabalho entre especialidades que coincidem um mesmo objeto estudado.
6. Interdisciplinaridade unificadora - Existe uma autêntica integração de duas disciplinas, resultado da construção de um marco teórico comum, como de uma metodologia de pesquisa.

Segundo Marcel Boisot, distingue-se três tipos de interdisciplinaridade:

1. Interdisciplinaridade linear - É uma modalidade de intercâmbio interdisciplinar na qual uma ou mais leis tomadas de uma disciplina são usadas para explicar fenômenos de outra, mediante alguma redefinição das variáveis e parâmetros, ela seria ajustada ao novo contexto disciplinar.
2. Interdisciplinaridade estrutural – Quando as intervenções entre duas ou mais disciplinas levam a criação de um corpo de leis novos que formam a estrutura básica de uma disciplina original, que não pode ser reduzida à coordenação formal de suas geradoras, surge uma nova disciplina.
3. Interdisciplinaridade restritiva - O campo de aplicação de cada matéria é definido exclusivamente conforme um objeto concreto de pesquisa e um campo de aplicação específico.

Jean Piaget, propõe outra importante hierarquização de níveis de colaboração e integração entre as disciplinas:

1. Multidisciplinaridade – O nível inferior de integração. Ocorre quando para solucionar um problema, busca-se a informação e ajuda em várias disciplinas, sem que tal interação contribua para modifica-las ou enriquecê-las.
2. Interdisciplinaridade - Segundo nível de associação entre disciplinas, em que a cooperação entre as várias disciplinas provoca intercâmbios reais, existe reciprocidade e enriquecimento mútuo.
3. Transdisciplinaridade - È a etapa superior da integração. Trata-se da construção de um sistema total, sem fronteiras sólidas entre as disciplinas.

Segundo Erich Jantsch os níveis da interdisciplinaridade são:

1. Multedisciplinaridade - Reflete o mais baixo nível de coordenação. Seria a mera justaposição entre as diversas disciplinas, oferecidas de maneira simultânea, com a intenção de esclarecer alguns dos seus elementos comuns.
2. Pluridisciplinaridade - É a justaposição de disciplinas mais ou menos próximas, dentro de um mesmo setor de conhecimento. É uma forma de cooperação que visa melhorar as relações entre as disciplinas.
3. Disciplinaridade cruzada – Envolve uma abordagem baseada em postura de força. A possibilidade de comunicação está desequilibrada, pois uma das disciplinas dominará sobre as outras. A matéria considerada mais importante determinará o que as demais disciplinas deverão assumir.
4. Interdisciplinaridade - É algo diferente, que reúne estudos complementares de diversos especialistas em um contexto de estudo de âmbito mais coletivo. Implica em uma vontade e compromisso de elaborar um contexto mais geral, no qual cada uma das disciplinas em contato são por sua vez modificadas e passam a depender claramente uma das outras.
5. Transdisciplinaridade - Conceito que aceita a prioridade de uma transcendência, de uma modalidade de relação entre as disciplinas que as supere. É o nível superior da interdisciplinaridade, da coordenação onde desaparecem os limites entre as diversas disciplinas e se constitui um sistema total que ultrapassa o plano das relações e interações entre as disciplinas.

CONCLUSÃO

Através deste trabalho, foi possível compreender de forma mais sistemática e com um certo embasamento teórico, o que vem a ser a Interdisciplinaridade e suas relações educacionais.
Assim sendo, observa-se a importância da interdisciplinaridade para acabar com a fragmentação maléfica que assola as áreas de conhecimento atuais, dificultando às pessoas entenderem o mundo como um todo, levando a uma aprendizagem fragmentada do conhecimento, que na realidade deveria se aprender em sua plenitude.
Este é um dos grandes desafios da educação para o século XXI e deve ser encarado com veemência para que se possa alcançar o êxito necessário.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FAZENDA, Ivani. Interação e Interdisciplinaridade no Ensino Brasileiro: Afetividade ou Ideologia. São Paulo: Loyola, 1993.

__________ . Práticas Interdisciplinares na Escola. 6.ed. São Paulo: Cortez,1999.

LUCK, Heloísa. Pedagogia Interdisciplinar – Fundamentos Teórico – Metodológicos. 6ed. São Paulo: Vozes.,1994.

SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. São Paulo: Artmed,1998.

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L.M.J.
(Fevereiro/2002)


Interdisciplinaridade no Ensino Médio: desafios e potencialidades 1
Por:Jairo Gonçalves Carlos
Fonte: http://vsites.unb.br/ppgec/dissertacoes/proposicoes/proposicao_jairocarlos.pdf


Interdisciplinaridade: o que é isso?

Segundo Ivani Fazenda, a interdisciplinaridade surgiu na França e na Itália
em meados da década de 60, num período marcado pelos movimentos estudantis
que, dentre outras coisas, reivindicavam um ensino mais sintonizado com as
grandes questões de ordem social, política e econômica da época.
A interdisciplinaridade teria sido uma resposta a tal reivindicação, na medida
em que os grandes problemas da época não poderiam ser resolvidos por uma única
disciplina ou área do saber.
No final da década de 60, a interdisciplinaridade chegou ao Brasil e logo
exerceu influência na elaboração da Lei de Diretrizes e Bases Nº 5.692/71. Desde
então, sua presença no cenário educacional brasileiro tem se intensificado e,
recentemente, mais ainda, com a nova LDB Nº 9.394/96 e com os Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCN).
Além de sua forte influência na legislação e nas propostas curriculares, a
interdisciplinaridade ganhou força nas escolas, principalmente no discurso e na
prática de professores dos diversos níveis de ensino.
Apesar disso, estudos têm revelado que a interdisciplinaridade ainda é pouco
conhecida. E é com o objetivo de contribuir para o entendimento desse tema que
apresentaremos a seguir um breve resumo das principais concepções e
controvérsias em torno desse tema.
Porém, antes de entrarmos na discussão sobre a interdisciplinaridade
propriamente dita, precisamos distingui-la de outros termos que têm gerado uma
série de ambigüidades por expressarem idéias muito próximas entre si.
1 Níveis de interação entre as disciplinas
Quando falamos em interdisciplinaridade, estamos de algum modo nos
referindo a uma espécie de interação entre as disciplinas ou áreas do saber.
Todavia, essa interação pode acontecer em níveis de complexidade diferentes. E é
justamente para distinguir tais níveis que termos como multidisciplinaridade,
pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade foram criados.
Em seguida, discorreremos sucintamente sobre cada um deles buscando
esclarecer as distinções entre tais terminologias. Com isso, esperamos contribuir
para um uso mais cuidadoso de tais termos no cotidiano escolar.
A classificação apresentada abaixo é a mais comum e foi proposta
originalmente por Eric Jantsch e sofreu algumas adaptações de Hilton Japiassú
(1976), um dos pioneiros da interdisciplinaridade no Brasil.
Jairo Gonçalves Carlos Interdisciplinaridade no Ensino Médio: desafios e potencialidades 2
1.1 Multidisciplinaridade
A multidisciplinaridade representa o primeiro nível de integração entre os
conhecimentos disciplinares. Muitas das atividades e práticas de ensino nas escolas
se enquadram nesse nível, o que não as invalida. Mas, é preciso entender que há
estágios mais avançados que devem ser buscados na prática pedagógica.
Segundo Japiassú, a multidisciplinaridade se caracteriza por uma ação
simultânea de uma gama de disciplinas em torno de uma temática comum. Essa
atuação, no entanto, ainda é muito fragmentada, na medida em que não se explora
a relação entre os conhecimentos disciplinares e não há nenhum tipo de cooperação
entre as disciplinas.
A Figura 1 é uma representação esquemática
desse tipo de interação, onde cada retângulo representa
o domínio teórico-metodológico de uma disciplina.
Observe que os conhecimentos são estanques e estão
todos num mesmo nível hierárquico e, além disso, não há
nenhuma “ponte” entre tais domínios disciplinares, o que sugere a inexistência de
alguma organização ou coordenação entre tais conhecimentos.
1.2 Pluridisciplinaridade
Na pluridisciplinaridade, diferentemente do nível anterior, observamos a
presença de algum tipo de interação entre os conhecimentos interdisciplinares,
embora eles ainda se situem num mesmo nível hierárquico, não havendo ainda
nenhum tipo de coordenação proveniente de um nível
hierarquicamente superior.
Como o esquema da Figura 2 sugere, há uma
espécie de ligação entre os domínios disciplinares
indicando a existência de alguma cooperação e ênfase
à relação entre tais conhecimentos.
Alguns estudiosos não chegam a estabelecer nenhuma diferença entre a
multidisciplinaridade e a pluridisciplinaridade, todavia, preferimos considerá-la, pois a
existência ou não de cooperação e diálogo entre as disciplinas é determinante para
diferenciar esses níveis de interação entre as disciplinas.
1.3 Interdisciplinaridade
Finalmente, a interdisciplinaridade representa o
terceiro nível de interação entre as disciplinas. E,
Figura 1 – Multidisciplinaridade
Figura 2 – Pluridisciplinaridade
Figura 3 - Interdisciplinaridade
Jairo Gonçalves Carlos Interdisciplinaridade no Ensino Médio: desafios e potencialidades 3
segundo Japiassú, é caracterizada pela presença de uma axiomática comum a um
grupo de disciplinas conexas e definida no nível hierárquico imediatamente superior,
o que introduz a noção de finalidade.
A Figura 3 ilustra com clareza a existência de um nível hierárquico superior de
onde procede a coordenação das ações disciplinares. Dessa forma, dizemos que na
interdisciplinaridade há cooperação e diálogo entre as disciplinas do conhecimento,
mas nesse caso se trata de uma ação coordenada. Além do mais, essa axiomática
comum, mencionada por Japiassú, pode assumir as mais variadas formas. Na
verdade, ela se refere ao elemento (ou eixo) de integração das disciplinas, que
norteia e orienta as ações interdisciplinares.
Segundo os PCN,
A interdisciplinaridade supõe um eixo integrador, que pode ser o objeto de
conhecimento, um projeto de investigação, um plano de intervenção. Nesse
sentido, ela deve partir da necessidade sentida pelas escolas,
professores e alunos de explicar, compreender, intervir, mudar, prever,
algo que desafia uma disciplina isolada e atrai a atenção de mais de
um olhar, talvez vários (BRASIL, 2002, p. 88-89, grifo do autor).
Portanto, defendemos que a interdisciplinaridade não deveria ser considerada
como uma meta obsessivamente perseguida no meio educacional simplesmente por
força da lei, como tem acontecido em alguns casos. Pelo contrário, ela pressupõe
uma organização, uma articulação voluntária e coordenada das ações disciplinares
orientadas por um interesse comum. Nesse ponto de vista, a interdisciplinaridade só
vale a pena se for uma maneira eficaz de se atingir metas educacionais previamente
estabelecidas e compartilhadas pelos membros da unidade escolar. Caso contrário,
ela seria um empreendimento trabalhoso demais para atingir objetivos que poderiam
ser alcançados de forma mais simples.
1.4 Transdisciplinaridade
A transdisciplinaridade representa um nível de integração disciplinar além da
interdisciplinaridade. Trata-se de uma proposta relativamente recente no campo
epistemológico.
Japiassú a define como sendo uma espécie de coordenação de todas as
disciplinas e interdisciplinas do sistema de ensino inovado, sobre a base de uma
axiomática geral.
Como se pode observar na Figura 4, este é
um tipo de interação onde ocorre uma espécie de
integração de vários sistemas interdisciplinares
num contexto mais amplo e geral, gerando uma
interpretação mais holística dos fatos e
fenômenos.
Figura 4 - Transdisciplinaridade
Jairo Gonçalves Carlos Interdisciplinaridade no Ensino Médio: desafios e potencialidades 4
Agora que já distinguimos os diversos níveis de interação entre as disciplinas,
nos deteremos à discussão e análise das concepções de interdisciplinaridade mais
comuns. Inclusive, discutiremos os pontos mais polêmicos e contraditórios que
cercam essa temática.
1.5 Conceitos de interdisciplinaridade
Embora tenhamos enfatizado na seção anterior a variedade dos níveis de
interação entre as disciplinas, dentre os quais se destaca a interdisciplinaridade.
Vale a pena dizer que, internamente, o próprio conceito de interdisciplinaridade
apresenta os seus variantes, sendo um conceito de caráter polissêmico.
Para ilustrar essa riqueza conceitual, apresentamos a seguir uma
classificação dos tipos de interdisciplinaridade:
1) Interdisciplinaridade heterogênea
Vem a ser uma espécie de enciclopedismo, baseada na “soma” de
informações procedentes de diversas disciplinas.
Pertencem a esse tipo os enfoques de caráter enciclopédico, combinando
programas diferentemente dosados. Tais programas objetivavam garantir uma
formação ampla e geral. Entretanto, segundo Japiassú (1976), as idéias gerais são
geradoras de imobilismo.
2) Pseudo-interdisciplinaridade
O nexo de união é estabelecido em torno de uma espécie de “metadisciplina”.
Neste caso existe uma estrutura de união, normalmente um modelo teórico ou um
marco conceitual, aplicado para trabalhar em disciplinas muito diferentes entre si.
Dessa maneira, pertencem a esse tipo as diversas tentativas de utilização de
certos instrumentos conceituais e de análise, considerados epistemologicamente
“neutros”, para fins de associação das disciplinas, todas devendo recorrer aos
mesmos instrumentos de análise que seriam o denominador comum das pesquisas.
Por exemplo, na Idade Média, a Teologia foi considerada a ciência global à qual
todos os outros saberes se subordinavam. Nos séculos XVI a XVII a Filosofia toma a
Jairo Gonçalves Carlos Interdisciplinaridade no Ensino Médio: desafios e potencialidades 5
precedência e se torna o modelo do verdadeiro conhecimento. Nos séculos XVIII e
XIX, a Física começou a reinar absoluta entre as ciências como o modelo perfeito da
atividade científica. Todas as outras ciências, para serem consideradas científicas,
se obrigavam a seguir o modelo da Física. No Século XX, o modelo se deslocou
para a Biologia.
Para Japiassú (1976), o emprego desses instrumentos comuns não é
suficiente para conduzir a um empreendimento interdisciplinar. E é por isso que este
tipo de colaboração pode ser tachado de falso interdisciplinar.
3) Interdisciplinaridade auxiliar
Este tipo de associação consiste, essencialmente, no fato de uma disciplina
tomar de empréstimo a uma outra seu método ou seus procedimentos. Em alguns
casos, este tipo de interdisciplinaridade não ultrapassa o domínio da ocasionalidade
e das situações provisórias. Em outros, é mais durável, na medida em que uma
disciplina se vê constantemente forçada a empregar os métodos de outra, é o caso,
por exemplo, da pedagogia que constantemente precisa recorrer à psicologia. Follari
(1995) figura entre os estudiosos que questionam a validade dessa forma de
interdisciplinaridade.
4) Interdisciplinaridade compósita
É levada a efeito quando se trata de resolver os grandes e complexos
problemas colocados pela sociedade atual: guerra, fome, delinqüência, poluição
dentre outros. Trata-se de reunir várias especialidades para encontrar soluções
técnicas tendo em vista resolver determinados problemas, apesar das contingências
históricas em constante mutação. Todavia, nem os domínios materiais nem
tampouco os domínios de estudo dessas disciplinas, com seus níveis de integração
teórica, entram numa real interação. O que se verifica é apenas uma conjugação de
disciplinas por aglomeração, cada uma dando sua contribuição, mas guardando a
autonomia e a integridade de seus métodos, de seus conceitos-chaves e de suas
epistemologias.
Jairo Gonçalves Carlos Interdisciplinaridade no Ensino Médio: desafios e potencialidades 6
5) Interdisciplinaridade unificadora
Procede de uma coerência bastante estreita dos domínios de estudo das
disciplinas, havendo certa integração de seus níveis de integração teórica e dos
métodos correspondentes. Por exemplo, certos elementos e certas perspectivas da
Biologia ganharam o domínio da Física para formar a Biofísica.
Para Japiassú, essa é a forma legítima de interdisciplinaridade. No entanto,
como ele mesmo afirma, esse nível de integração só é atingível através da pesquisa
científica. Na melhor das hipóteses, o que se poderia fazer no ensino seria adaptar
certos aspectos dos novos campos científicos interdisciplinares, como a Biofísica, e
explorar os seus fundamentos e as relações entre tais conhecimentos disciplinares
de maneira a gerar a compreensão de uma série de fenômenos biofísicos, ou seja,
fenômenos que não seriam adequadamente compreendidos somente a partir da
Física ou da Biologia.
Quando falamos de interdisciplinaridade no ensino, não podemos deixar de
considerar a contribuição dos PCN. Uma análise mais cuidadosa desses
documentos nos revela a opção por uma concepção instrumental de
interdisciplinaridade.
Na perspectiva escolar, a interdisciplinaridade não tem a pretensão de criar
novas disciplinas ou saberes, mas de utilizar os conhecimentos de várias
disciplinas para resolver um problema concreto ou compreender um
fenômeno sob diferentes pontos de vista. Em suma, a interdisciplinaridade
tem uma função instrumental. Trata-se de recorrer a um saber útil e
utilizável para responder às questões e aos problemas sociais
contemporâneos (BRASIL, 2002, p. 34-36, grifo nosso).
Particularmente, essa visão instrumental e utilitarista da interdisciplinaridade é
o que tem dado consistência e sustentação a essa abordagem ao longo dos tempos.
Prova disso é o fato de que, no século XX, muito do desenvolvimento científico e
tecnológico proveio de pesquisas de caráter interdisciplinar feitas inicialmente com
interesses meramente militares. É o caso do computador, da Internet, da bomba
atômica, só para citar alguns casos.
Esse posicionamento em favor da perspectiva instrumental, entretanto, não
encerra a idéia de interdisciplinaridade apregoada nos PCN, sendo preciso recorrer
aos PCN+ Ensino Médio, documentos que trazem um conjunto de orientações
educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais, para que se
tenha mais clareza sobre o assunto.
Com os PCN+, o conceito de interdisciplinaridade defendido na nova proposta
Jairo Gonçalves Carlos Interdisciplinaridade no Ensino Médio: desafios e potencialidades 7
curricular fica mais claro. Essa nova proposta orienta a organização pedagógica da
escola em torno de três princípios orientadores, a saber: a contextualização, a
interdisciplinaridade e as competências e habilidades.
Um trabalho interdisciplinar, antes de garantir associação temática entre
diferentes disciplinas – ação possível mas não imprescindível –, deve
buscar unidade em termos de prática docente, ou seja, independentemente
dos temas/assuntos tratados em cada disciplina isoladamente. Em nossa
proposta, essa prática docente comum está centrada no trabalho
permanentemente voltado para o desenvolvimento de competências e
habilidades, apoiado na associação ensino–pesquisa e no trabalho
com diferentes fontes expressas em diferentes linguagens, que
comportem diferentes interpretações sobre os temas/assuntos
trabalhados em sala de aula. Portanto, esses são os fatores que dão
unidade ao trabalho das diferentes disciplinas, e não a associação das
mesmas em torno de temas supostamente comuns a todas elas (BRASIL,
2002b, p. 21-22, grifo nosso).
Com essa afirmação, fica claro que a interdisciplinaridade proposta nos PCN+
assume como elemento ou eixo de integração a prática docente comum voltada para
o desenvolvimento de competências e habilidades comuns nos alunos. Essa
proposta é interessante, pois ela promove a mobilização da comunidade escolar em
torno de objetivos educacionais mais amplos, que estão acima de quaisquer
conteúdos disciplinares.
Dessa forma, essa proposta não gera a descaracterização das disciplinas, a
perda da autonomia por parte dos professores e, com isso, não rompe com a
disciplinaridade nas escolas, o que geraria uma verdadeira confusão na organização
escolar. Trata-se de uma prática que não dilui as disciplinas no contexto escolar,
mas que amplia o trabalho disciplinar na medida em que promove a aproximação e a
articulação das atividades docentes numa ação coordenada e orientada para
objetivos bem definidos.
Há quem defenda que a interdisciplinaridade possa ser praticada
individualmente, ou seja, que um único professor possa ensinar sua disciplina numa
perspectiva interdisciplinar. No entanto, acreditamos que a riqueza da
interdisciplinaridade vai muito além do plano epistemológico, teórico, metodológico e
didático. Sua prática na escola cria, acima de tudo, a possibilidade do “encontro”, da
“partilha”, da cooperação e do diálogo e, por isso, somos partidários da
interdisciplinaridade enquanto ação conjunta dos professores.
Fazenda (1994) fortalece essa idéia quando fala das atitudes de um
“professor interdisciplinar”:
Entendemos por atitude interdisciplinar, uma atitude diante de alternativas
para conhecer mais e melhor; atitude de espera ante os atos consumados,
atitude de reciprocidade que impele à troca, que impele ao diálogo – ao
Jairo Gonçalves Carlos Interdisciplinaridade no Ensino Médio: desafios e potencialidades 8
diálogo com pares idênticos, com pares anônimos ou consigo mesmo –
atitude de humildade diante da limitação do próprio saber, atitude de
perplexidade ante a possibilidade de desvendar novos saberes, atitude de
desafio – desafio perante o novo, desafio em redimensionar o velho –
atitude de envolvimento e comprometimento com os projetos e com as
pessoas neles envolvidas, atitude, pois, de compromisso em construir
sempre da melhor forma possível, atitude de responsabilidade, mas,
sobretudo, de alegria, de revelação, de encontro, de vida (FAZENDA, 1994,
p. 82).
E mais, Fazenda (1994) chega a determinar o que seria uma sala de aula
interdisciplinar:
Numa sala de aula interdisciplinar, a autoridade é conquistada, enquanto na
outra é simplesmente outorgada. Numa sala de aula interdisciplinar a
obrigação é alternada pela satisfação; a arrogância, pela humildade; a
solidão, pela cooperação; a especialização, pela generalidade; o grupo
homogêneo, pelo heterogêneo; a reprodução, pela produção do
conhecimento. [...] Numa sala de aula interdisciplinar, todos se percebem e
gradativamente se tornam parceiros e, nela, a interdisciplinaridade pode ser
aprendida e pode ser ensinada, o que pressupõe um ato de perceber-se
interdisciplinar. [...] Outra característica observada é que o projeto
interdisciplinar surge às vezes de um que já possui desenvolvida a atitude
interdisciplinar e se contamina para os outros e para o grupo. [...] Para a
realização de um projeto interdisciplinar existe a necessidade de um projeto
inicial que seja suficientemente claro, coerente e detalhado, a fim de que as
pessoas nele envolvidas sintam o desejo de fazer parte dele (FAZENDA,
1994, p. 86-87).
Fica evidente nas citações acima que, para Fazenda, a interdisciplinaridade
possui uma dimensão antropológica, no sentido de impregnar e influenciar os
comportamentos, ações e projetos pedagógicos. Ou seja, para ela, a
interdisciplinaridade transcende o espaço epistemológico, sendo incorporada aos
valores e atitudes humanos que compõem o perfil profissional/pessoal do professor
interdisciplinar.
Da mesma forma, Severino (1998) dá mais ênfase ao enfoque antropológico
da interdisciplinaridade em detrimento do epistemológico, pois, segundo ele, é
importante não se priorizar a perspectiva epistemológica, excessivamente valorizada
pela modernidade, pois a referência fundamental da existência humana é a prática.
Assim, quando se discute a questão do conhecimento pedagógico, ocorre
forte tendência em se colocar o problema [da interdisciplinaridade] de um
ponto de vista puramente epistemológico, com desdobramento no curricular.
Mas entendo que é preciso colocá-lo sob o ponto de vista da prática efetiva,
concreta, histórica (SEVERINO, 1998, p. 33).
Como enfatiza Severino, notamos que é preciso que a interdisciplinaridade se
torne efetivamente uma prática nas escolas. E é com essa perspectiva que
propomos esse texto, com o objetivo de encorajar essa prática nas escolas e
Jairo Gonçalves Carlos Interdisciplinaridade no Ensino Médio: desafios e potencialidades 9
fundamentá-la num princípio teórico básico. As possibilidades apresentadas acima
ilustram, de certa forma, a complexidade e a riqueza conceitual que cercam a
interdisciplinaridade e poderiam ser sintetizadas conforme o esquema abaixo:
Enfim, muitas são as possibilidades quando se trata de interdisciplinaridade,
não há receitas a seguir. Os caminhos na busca da interdisciplinaridade devem ser
trilhados pela equipe docente de cada unidade escolar. O ponto de partida é
determinado pelos problemas escolares compartilhados pelos professores e por sua
experiência pedagógica. O destino é determinado pelos objetivos educacionais, ou
melhor, pelo projeto político pedagógico da escola. E como todo caminho privilegia
uma direção em detrimento de outras, esperamos ter contribuído no sentido de
oferecer alguma orientação para que os caminhos da interdisciplinaridade sejam
trilhados conscientemente.
Referências bibliográficas:
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica.
Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio. Brasília: Ministério da
Educação, 2002a.
______. PCN + Ensino Médio: Orientações educacionais complementares aos
Parâmetros Curriculares Nacionais. Ciências humanas e suas tecnologias. Brasília:
Ministério da Educação, 2002b.
FAZENDA, Ivani C. A. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. 4. ed.
Campinas: Papirus, 1994.
______. Algumas considerações práticas sobre interdisciplinaridade. In: JANTSCH,
Ary; BIANCHETTI, Lucídio (orgs.). Interdisciplinaridade: para além da filosofia do
multidisciplinaridade pluridisciplinaridade interdisciplinaridade transdisciplinaridade
Níveis crescentes de interação entre as disciplinas
Heterogênea Pseudo-interdisciplinaridade Auxiliar Compósita Unificadora
Algumas formas de interdisciplinaridade:
Jairo Gonçalves Carlos Interdisciplinaridade no Ensino Médio: desafios e potencialidades 10
sujeito. Petrópolis: Vozes, 1995.
JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro:
Imago, 1976. 220 p.
SEVERINO, Antônio Joaquim. O conhecimento pedagógico e a interdisciplinaridade:
o saber como intencionalização da prática. In: Fazenda, Ivani C. Arantes (org.).
Didática e interdisciplinaridade. Campinas – SP: Papirus, 1998. p. 31-44.

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